terça-feira, 27 de novembro de 2012

OS BASTIDORES DO JULGAMENTO DO SENHOR JESUS CRISTO



Sob os aspectos jurídico, religioso e moral, o julgamento de Jesus foi uma bazófia. Segundo o historiador judeu Flávio Josefo, havia interesse político em relação ao Império Romano. Pretendia-se a manutenção de privilégios para a classe sacerdotal dominante. Saduceus pretendiam a manutenção do "status quo". O Grande Conselho - Sinédrio, em grego assembléia e "sanhedin", em hebraico - à época do julgamento de Jesus, era representado por três grupos:

a) representantes da aristocracia sacerdotal, com mentalidade saducéia, eram os sumos sacerdotes do Templo;

b) representantes de famílias leigas influentes;

c) grupo dos fariseus, os que influenciavam nas decisões.

O Sinédrio foi criado na época dos persas. O Talmude impunha uma Corte, chamada Setenta e Um. Essa corte se reunia através de sessões públicas, com exceção do sábado e nos dias de festa.

O Sinédrio tinha autoridade para assuntos profanos e religiosos. A condenação à morte exigia o voto favorável de 23 juízes. Se 22 absolvessem e houvesse a abstenção de um, seria necessário ampliar o número de juízes. O Conselho não poderia conduzir um processo capital, sem autorização de Roma. Em João 18.31, assevera-se a lei, em que "não nos é permitido condenar ninguém à morte".

Portanto, essa situação jurídica à época do julgamento de Jesus estava em vigor. O Grande Conselho não encontrou prova objetiva para condenar Jesus à morte. As testemunhas se contradisseram. Pela imperfeição da prova material e testemunhal, indagaram se o acusado era um Messias, o filho do Deus Bendito. Com a resposta afirmativa, o sumo sacerdote iniciou o espetáculo. Rasgou a túnica e Jesus foi julgado como réu de morte, apesar das testemunhas falsas. Em Salmo 22, estava escrito: "pois contra mim levantaram-se testemunhas falsas e gente que respira violência". Em Isaías 53.7, já se lia o presságio da lamentável tragédia.

Anás é o pivô da trama. Sumo sacerdote desde o ano VI d.C., era um experiente estrategista. Rico, nomeou cinco filhos como sumos sacerdotes. Em diversos "departamentos" do templo, nomeou outros parentes. É provável que recebesse comissão e sobretaxa dos cambistas sobre venda de animais para o sacrifício.

Caifás era sacerdote dependente. Tanto que Jesus foi levado à presença de Anás, primeiramente. Anás era presidente de honra do Conselho. Anás mandou Jesus de volta a Caifás, sumo sacerdote desde o ano 18 d.C. Jesus representava a ameaça ao poder de Caifás e ameaça à instituição política do Estado judaico. Jesus colocara o homem acima da Lei e do Sinédrio.

Nesse contexto, há duas contradições. A primeira é a de que um sacerdote saduceu radical jamais poderia indagar acerca do conteúdo de um dogma central da fé cristão. Quando se pergunta: "És Filho de Deus Bendito?", ao responder que sim, pelos paradigmas dos dogmas cristãos, Jesus não havia cometido blasfêmia alguma. Mas como o processo já estava direcionado, o Sinédrio proferiu sentença. A sentença foi extraída de uma sessão secreta imediata, quando o Sinédrio só poderia condenar no segundo dia.

A segunda contradição é a de que os textos antigos indicam que o processo aconteceu à noite. Foi uma reunião "extraordinária", porque estavam próximas as comemorações da Páscoa. As reuniões oficiais só poderiam ser realizadas durante o dia. Houve mesmo uma exceção de incompetência!

O Sinédrio manda Jesus a Herodes. Depois, manda para Pilatos. Esse conferiu um caráter político ao interrogatório, o que o tornaria simpático aos interesses de Roma e ao imperador Tibério. Segue-se a clássica pergunta, com um teor político de poder-Estado de Roma: "És o rei dos judeus?"
Diante da resposta afirmativa e, depois de um melodramático espetáculo, autoriza o sacrifício de cruz: "Ibis in crucem".

O julgamento diante de Pilatos foi também uma farsa. Os crimes de alta traição eram regulados pela "Lex Julia majestatis". Segundo a tradição, essa lei previa que os crimes de lesa-majestade deveriam ser julgados pelo Tribunal Romano. Não foi convocado Tribunal algum.

Pelo nosso Código Penal e sua processualística, o julgamento ordenado pelo Sinédrio seria anulado. No Sinédrio, procedimentos processuais ocorreram à noite. E a lei proibia sessões noturnas. A sentença de Pilatos guarda os ranços subjetivos. Estava preocupado com as relações políticas em Roma e tinha medo do poder exercido pelos sacerdotes judaicos. Nula seria a sentença porque só um Tribunal de Roma poderia decidir.

Quanto às provas, eram frágeis e incongruentes. Principalmente em relação às testemunhas. Por analogia e prismas do art. 386, incisos IV e VI, do Código de Processo Penal brasileiro, Jesus seria absolvido. Pelos ensinamentos talmúdicos, também.

Demonstramos, assim, que o julgamento de Jesus tem ingredientes de política "interna corporis" da instituição saducéia dos fariseus legalistas. Não observam nem mesmo a ordem Iegal existente - Justiça Institucional.

Outros subsídios podem ser encontrados em "A Sentença de Pilatos", obra de Kurt A. Speidel, pesquisador alemão traduzido. Baseado nas informações da época, nos textos evangélicos e na história tecida pelo escritor judeu Flávio Josefo, Speidel esgota ensinamentos, comparando o legalismo e o drama da paixão.

A questão central sobre este julgamento, assim como o preconceito de Caifás, reside em Mateus 26.3; Lucas 3.2; Mateus 26.57-65; João 11.49-53.